Quem chega a Barcelos a caminho de Compostela atravessa a ponte medieval, procura o galo, carimba a credencial... e procura o Albergue Cidade de Barcelos ou ruma a Compostela. Poucos sabem que estão a atravessar um dos territórios mais profundamente jacobeus de Portugal: dez freguesias do concelho têm Santiago por padroeiro, quase todas consagradas ao Apóstolo antes de Portugal ser reino. E já foram doze. Esta é a história de nove séculos de devoção e hospitalidade: a história que o Albergue Cidade de Barcelos continua hoje.
10 ORAGOS DE SANTIAGO EM BARCELOS
Quem chega a Barcelos a caminho de Compostela atravessa a ponte medieval, procura o galo, carimba a credencial — e segue. Poucos sabem que está a atravessar um dos territórios mais profundamente jacobeus de Portugal: no concelho de Barcelos, dez freguesias têm Santiago por padroeiro. Dez. Nenhum outro tema diz tanto sobre a relação desta terra com o Caminho.
São elas: Aldreu, Cambeses, Carapeços, Cossourado, Couto, Creixomil, Encourados, Feitos, Sequeade e Vila Seca. E já foram doze — mas a essas duas voltaremos no fim.
Mais antigas do que Portugal
Esta devoção não é invenção recente para turista ver. O historiador Arlindo de Magalhães Ribeiro da Cunha, no estudo que dedicou à devoção a Santiago no concelho de Barcelos (atas do congresso Barcelos Terra Condal, 1999), demonstrou que quase todas estas paróquias são anteriores à própria nacionalidade. O Censual de Braga, documento do século XI, já lhes chamava "de Santiago": Sancto Jacobo de Magistroi (a atual Carapeços), de Incoirados (Encourados), de Cosoirado (Cossourado), de Asinas (Couto), de Creiximir (Creixomil), de Villa Sicca (Vila Seca), de Ciquiavi (Sequeade), de Cambeses. Em 1128, doze anos antes de Portugal ser reino, um documento referia já a igreja de Santiago de Cambeses. E as Inquirições de D. Afonso II, em 1220, confirmam-nas uma a uma.
Quando D. Afonso Henriques ainda sonhava o reino, já estas terras rezavam ao Apóstolo.
Porquê tantas?
Porque por aqui passava (e passa) o Caminho. Barcelos era (e é) ponto de travessia obrigatório: o Cávado corta o concelho ao meio e quem vinha do sul, do Porto e de Rates, tinha de o atravessar para seguir rumo a Ponte de Lima e à Galiza. As freguesias de Santiago não estão espalhadas ao acaso: alinham-se ao longo das velhas estradas de peregrinação. A via romana do Porto a Ponte de Lima seguia por Couto ou por Carapeços, reunindo-se em Cossourado (três freguesias de Santiago em sequência). O Caminho do mosteiro de Vilar de Frades passava por Cambeses, Sequeade e Encourados (outras três). E havia até uma rota secundária por Vila Seca, em que os peregrinos atravessavam o Cávado de barco, em Fornelos.
A devoção deixou marcas por todo o lado: confrarias de Santiago em Creixomil, Encourados e Fragoso, uma Irmandade em Cambeses, a vieira de ouro que ainda hoje brilha no brasão de Aldreu, um painel de azulejos com o Apóstolo no lugar do Assento, em Encourados, cruzeiros e nichos à beira dos velhos caminhos.
E não eram só gente anónima. Os documentos e a tradição fazem passar por terras de Barcelos, em romagem a Santiago, a Rainha Santa Isabel e el-rei D. Manuel I (que esteve em Barcelos a 9 de novembro de 1502, a caminho de Compostela), além de viajantes ilustres de toda a Europa que deixaram relatos escritos: do capelão imperial Valckenstein (1451) ao padre italiano Laffi, que peregrinou por aqui várias vezes no século XVII e descreveu com encanto a vila, a ponte e o Bom Jesus da Cruz.
Os Santiagos perdidos
Dissemos dez, mas houve doze. Duas paróquias de Santiago desapareceram dos mapas. Echate foi absorvida no século XIV pela recém-criada freguesia de Feitos, que herdou o seu padroeiro: Feitos é, literalmente, uma freguesia que herdou o seu Santiago. Moldes foi extinta em 1566 e integrada em Remelhe, mas a sua igreja resistiu e ainda lá está: é a Capela de S. Tiago, no lugar de Santiago, raro exemplar de matriz quinhentista em meio rural, entre dois caminhos jacobeus.
Há oragos que desaparecem dos mapas, mas não da terra nem da memória.
O apelo de 1998
Uma última história, que nos toca diretamente. Em 1998, ao terminar o seu estudo, Arlindo Cunha deixava um apelo: lamentava que os milhares de peregrinos que passavam por Barcelos não encontrassem na cidade um espaço próprio para pernoitar, com condições básicas, e perguntava se seria pedir demais.
Não era. O Albergue Cidade de Barcelos é, um quarto de século depois, a resposta a esse apelo (a continuação natural de nove séculos de hospitalidade jacobeia nesta terra). Quando aqui dormes, peregrino, não estás apenas a descansar as pernas: estás a entrar numa história que começou antes de Portugal existir.
Quando voltares a calcorrear estas terras, olha para os nomes das freguesias que atravessas... o Apóstolo está em todo o lado!
Bom Caminho!