10 Oragos de Santiago em Barcelos
Nove séculos de devoção jacobeia, contados a partir do estudo do Professor Arlindo de Magalhães Ribeiro da Cunha: a história que o Albergue Cidade de Barcelos continua hoje.
Quem chega a Barcelos a caminho de Compostela pelo Caminho Português de Santiago atravessa a Ponte Peregrinos de Santiago (ponte medieval), procura o Galo de Barcelos, carimba a credencial, e é acolhido. Poucos sabem que estão a atravessar um dos territórios mais profundamente jacobeus de Portugal: no concelho de Barcelos, dez freguesias têm Santiago por padroeiro. Dez. E já foram doze.
São elas: Aldreu, Cambeses, Carapeços, Cossourado, Couto, Creixomil, Encourados, Feitos, Sequeade e Vila Seca. Esta é a sua história, e é também a nossa.

Santiago de Carapeços
Mais antigas do que Portugal
Esta devoção não é invenção recente para "turista ver". O historiador Arlindo de Magalhães Ribeiro da Cunha, no estudo que apresentou ao congresso «Barcelos Terra Condal» (1998), demonstrou-o documento a documento: quase todas estas paróquias são anteriores à própria nacionalidade.
O Censual de Braga, ainda no século XI, já lhes chamava «de Santiago»: Sancto Jacobo de Magistroi (a atual Carapeços), de Incoirados (Encourados), de Cosoirado (Cossourado), de Asinas (o atual Couto), de Creiximir (Creixomil), de Villa Sicca (Vila Seca), de Ciquiavi (Sequeade) e de Cambeses. Em 1128 (Portugal ainda nem era reino) um documento referia já a «ecclesiam Sancti Jacobi de Canbeses». E as Inquirições de D. Afonso II (1220) e de D. Afonso III (1258) confirmam-nas, uma a uma.
Quando D. Afonso Henriques ainda sonhava o reino, já estas terras rezavam ao Apóstolo.
Há histórias dentro da história. O Couto teve três nomes: «de Asinas» no Censual, «de Tamial» em 1220, «Cauto de Cidi» em 1258 (sempre de Santiago). Aldreu nasceu de uma partilha: até ao século XIII, a paróquia de Palme abrangia as duas terras; em 1258 já se falava de duas igrejas no couto do mosteiro (Santo André ficou em Palme, Santiago ficou em Aldreu, onde a vieira de ouro ainda hoje brilha no brasão da freguesia). E Feitos, a mais tardia de todas, criada só no século XIV, herdou o padroeiro da paróquia que absorveu (mas a essa voltaremos no fim).
Porquê tantas? Porque por aqui passava (e passa) o Caminho
As freguesias de Santiago não estão espalhadas ao acaso: alinham-se ao longo das velhas estradas de peregrinação. O Cávado corta o concelho ao meio, e quem vinha do sul, do Porto e de Rates, tinha de o atravessar para seguir rumo a Ponte de Lima e à Galiza.
A estrada de origem romana que saía do Porto, depois de passar em Rates, atravessava o rio aqui, em Barcelos, e seguia para Ponte de Lima por Couto ou por Carapeços, reunindo-se em Cossourado (três freguesias de Santiago em sequência). O caminho do mosteiro de Vilar de Frades, muito utilizado na peregrinação jacobeia, passava por Cambeses, Sequeade e Encourados (outras três). Uma variante por Macieira de Rates seguia por Goios, Santo Amaro e Moldes, que foi sede de uma paróquia jacobeia. E havia ainda a rota de Vila Seca, em que os peregrinos atravessavam o Cávado de barco, em Fornelos. Aqui o Professor Cunha regista um pormenor que arrepia: quando fez o levantamento no terreno, em agosto de 1998, nos velhos Moinhos da Quinta ainda existia um barco de passagem para a outra margem. Novecentos anos depois, o Caminho continuava a atravessar o rio no mesmo sítio.
E há um pormenor da Corografia Portuguesa que diz tudo sobre o que estas terras foram: a renda da freguesia do Couto, de sessenta mil réis, era «aplicada aos Romeiros de Santiago». Uma freguesia inteira ao serviço de quem caminhava.
A marca do Apóstolo no terreno
A devoção deixou sinais por todo o lado, e muitos ainda lá estão: vieiras esculpidas no portal da igreja matriz de Barcelos; a memória de uma ermida de Santiago na própria cidade, referida na estrada «que vai e corre da dita Vila para Santiago da Galiza»; confrarias de Santiago em Creixomil, Encourados e Fragoso, e uma Irmandade em Cambeses; o curioso nicho do Apóstolo numa casa de Feitos, no cruzamento do antigo caminho que subia de Echate; o painel de azulejos com Santiago no lugar do Assento, em Encourados; cruzeiros na Alheira, na Senhora da Portela e em Vila Seca; e as Alminhas de Aldreu e de Encourados, onde Santiago está representado.
E há a assistência, porque devoção e hospitalidade sempre caminharam juntas. Barcelos tinha gafaria para os doentes do caminho antes de 1178: nesse ano, um testamento já deixava esmola «aos leprosos de Barzelus». Em 1325, um cónego de Braga deixava dinheiro à ponte de Barcelos, porque na Idade Média construir uma ponte em local de passagem era considerado obra de caridade e santa. E, nas devoções que se colaram ao Caminho, o Professor Cunha encontrou uma que parece escrita para nós: a Senhora das Portas Abertas, o nome dado a capelas que ficavam sempre abertas, de dia e de noite, para que os peregrinos pudessem pernoitar ou simplesmente descansar, debaixo de telha. Há oitocentos anos que esta terra sabe o que é doar Hospitalidade.
Os peregrinos ilustres
Por estes caminhos passaram milhares de anónimos, e alguns nomes que a História guardou. A tradição faz passar por aqui, em romagem a Santiago, a Rainha Santa Isabel (em Fragoso ainda há um «poço de Santa Isabel»). D. Manuel I esteve em Barcelos a 9 de novembro de 1502, a caminho de Compostela, de onde regressou por Ponte de Lima ainda nesse mês.
E os viajantes letrados deixaram relatos escritos. O mais antigo que o Professor Cunha conhece é o do capelão imperial Valckenstein (1451), que passou por Barcelos, «a cidade em que um príncipe, o Duque de Barcelos, tem residência, na comitiva que veio buscar D. Leonor para casar com o imperador Frederico III. Seguiram-se Popielovo (1484), que media as distâncias de Ponte de Lima a Barcelos e a Rates; Jerónimo Münzer (1494), que descreveu «o pequeno lugar de Barcelos, situado num monte aos pés do qual passa um rio que vem de Braga»; o humanista Clenardo (1537); o padre Confalonieri (1594), que se encantou com a «muito grande ponte, de arcos compridíssimos, sobre o rio Cávado»; o Grão-Duque da Toscana Cosme III de Medicis (1669); o napolitano Albani (1745); e o padre italiano Domenico Laffi, que peregrinou a Compostela quatro vezes no século XVII e registou com encanto a devoção ao Bom Jesus da Cruz. Nem todos vinham contentes: em 1611, Jacobo Sobieski, pai do futuro rei da Polónia, queixava-se de que em Portugal «os estalajadeiros são ladrões»... mas isso é conversa para a Lenda do Galo.
Os Santiagos perdidos
Dissemos dez, mas houve doze. Echate, «Sancto Jacobo de Eixati» nas Inquirições, foi absorvida no século XIV pela recém-criada freguesia de Feitos, que herdou o seu padroeiro: Feitos é, literalmente, uma freguesia que herdou o seu Santiago. Moldes perdeu a autonomia e foi anexada a Remelhe, mas ainda em 1768 mantinha o título de Santiago, e a sua igreja resistiu: é a Capela de S. Tiago, no lugar de Santiago, entre dois caminhos jacobeus.
E, por rigor, registe-se a que não conta: em Regoufe houve uma capela de Santiago, já profanada em 1758, mas o Professor Cunha é claro: como paróquia, Regoufe nunca teve Santiago por orago. Dez é dez. Historiador é historiador.
Há oragos que desaparecem dos mapas, mas não da terra nem da memória.

Santiago de Remelhe
O apelo de 1998
Uma última história, que nos toca diretamente. Em 1998, ao terminar o seu estudo, o Professor Arlindo Cunha deixava um apelo: lamentava que, para quem fazia o Caminho de Santiago passando naturalmente por Barcelos, fosse «uma pena e um transtorno» não dispor aqui de um espaço próprio para pernoitar, com condições básicas. E perguntava: «Será pedir demais?»
Não era. Catorze anos depois, em 2012, abria portas na Rua Miguel Bombarda o Albergue Cidade de Barcelos. Talvez tenha sido a resposta a esse apelo, mas é certamente a continuação natural de nove séculos de hospitalidade jacobeia nesta terra. Quando aqui dormes, peregrino, não estás apenas a descansar as pernas: estás a entrar numa história que começou antes de Portugal existir. A mesma história da renda do Couto aplicada aos romeiros, da gafaria de 1178, da Senhora das Portas Abertas.
Quando voltares a calcorrear estas terras, olha para os nomes das freguesias que atravessas... o Apóstolo está em todo o lado!
Bom Caminho!
Fonte principal: CUNHA, Arlindo de Magalhães Ribeiro da — «A Devoção a Santiago no Concelho de Barcelos», in Barcelos Terra Condal — Congresso (Actas, 1998), vol. II, Câmara Municipal de Barcelos, 1999, pp. 150–172.